Cultura, times e desempenho no futebol: o que o Flamengo ensina

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Atualizado: 02/01/2026, 20:02
Peter Drucker em foto histórica de George Rose (Getty Images), usado como referência para discutir cultura, times e desempenho no futebol a partir do Flamengo

Peter Drucker afirmou que “a cultura come a estratégia no café da manhã”, sugerindo que planos bem desenhados pouco valem quando não encontram um ambiente capaz de sustentá-los. No futebol, contudo, a dinâmica parece ainda mais específica: é o funcionamento concreto dos times que condiciona, limita ou potencializa aquilo que se convencionou chamar de cultura do clube.

Téo Benjamim: Há uma longa história por trás deste Flamengo em outro patamar

Este ensaio adapta conceitos da psicologia organizacional ao contexto do futebol, tomando o Flamengo como principal referência.

Cultura de clube e identidade no futebol

Clubes gostam de se definir por identidades amplas, quase míticas. Fala-se em DNA, camisa pesada, tradição vencedora e a identidade institucional do Flamengo.

Mas a chamada cultura do clube raramente se manifesta de forma homogênea. Ela se apresenta, na prática, de maneira fragmentada, filtrada por grupos específicos, em momentos específicos da história.

No futebol, a cultura institucional costuma funcionar mais como pano de fundo simbólico do que como força organizadora direta do desempenho esportivo.

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O Flamengo e a fragmentação da cultura ao longo do tempo

O Flamengo oferece um exemplo claro dessa tensão. A instituição é a mesma, mas os ciclos vencedores do Flamengo, como os de 1981, 2019 ou 2025, operam sob lógicas internas muito distintas.

A camisa, os símbolos e o discurso permanecem. O que muda é a organização cotidiana do elenco, a forma como lideranças se estabelecem, como conflitos são resolvidos e como decisões são tomadas sob pressão.

A cultura rubro-negra existe, mas ela se expressa de maneiras diferentes conforme o time que a encarna em campo.

O vestiário como centro real do desempenho

No futebol, jogadores não interagem com abstrações institucionais. Eles interagem com colegas de posição, com um treinador, com uma comissão técnica, com a dinâmica interna do vestiário rubro-negro.

É nesse espaço reduzido - e não no plano simbólico do clube - que confiança, responsabilidade e autonomia se constroem ou se desfazem. É nesse nível que o futebol acontece de fato.

Liderança, confiança e tomada de decisão

Nos grandes times do Flamengo dos anos 80, por exemplo, a cultura do clube não se impunha como herança passiva. Ela era constantemente reinterpretada por um grupo que se reconhecia como protagonista do processo. Lideranças técnicas e simbólicas coexistiam, os papéis eram claros e a confiança mútua permitia decisões rápidas e autônomas, inclusive em contextos adversos.

O time não apenas representava a cultura do Flamengo. Ele a colocava em prática, adaptando-a às exigências do jogo.

Por que alguns elencos funcionam e outros não

A experiência moderna do futebol reforça esse padrão. Um clube pode ter recursos financeiros, história consolidada e discurso institucional coerente, mas fracassar se o ambiente interno do time for disfuncional. Da mesma forma, elencos bem organizados conseguem sustentar desempenho mesmo em clubes instáveis.

Por isso, não é incomum observar, dentro do mesmo clube, times que reagem de formas opostas à pressão. Alguns se retraem, outros avançam. Alguns se desorganizam, outros se fortalecem. A cultura institucional permanece, mas o resultado depende do arranjo específico daquele grupo.

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Cultura como discurso, time como prática

Discursos sobre identidade, pertencimento e tradição têm pouco efeito quando não encontram correspondência no cotidiano do vestiário. No futebol, o senso de valor individual nasce menos da narrativa institucional e mais da confiança construída entre os membros do time, expressa em decisões compartilhadas e responsabilidades assumidas coletivamente.

Ao pensar desempenho esportivo, portanto, talvez seja mais produtivo deslocar o foco da ideia abstrata de cultura do clube para a análise concreta dos times que o representam em cada período.

A história dos clubes é escrita menos por declarações de identidade e mais pela capacidade que seus times demonstram, em momentos decisivos, de agir de forma coerente, organizada e autônoma. No futebol, a cultura existe, mas é o time que a transforma em resultado.

 


Nota de adaptação

Este texto é uma adaptação livre, aplicada ao universo do Flamengo e do futebol, do artigo Por que os times comem a cultura no café da manhã, escrito por Peter Cauwelier, PhD, e publicado em 2021 pela TEAM.AS.ONE, no portal do IISP – Instituto Internacional em Segurança Psicológica.

A estrutura conceitual original, centrada na relação entre cultura organizacional, times e desempenho, foi preservada. Linguagem, exemplos e recortes foram reinterpretados à luz da dinâmica específica do futebol.

Referências

Cauwelier, Peter, PhD. Por que os times comem a cultura no café da manhã. TEAM.AS.ONE, 2021.

Ravasi, D. & Schultz, M. Responding to organizational identity threats: Exploring the role of organizational culture. Academy of Management Journal, 2006, 49(3), 433–458.

Schein, E. H. Organizational Culture and Leadership. 3ª ed. Jossey-Bass, 2004.

Rozovsky, J. Project Aristotle. Google, 2015.

Edmondson, A. C. The Fearless Organization: Creating Psychological Safety in the Workplace for Learning, Innovation, and Growth. Wiley, 2018.

Andreatta, B. Wired to Connect: The Brain Science of Teams and a New Model for Creating Collaboration and Inclusion. 7th Mind Publishing, 2018.

Buckingham, M. & Goodall, A. The Power of Hidden Teams. Harvard Business Review, Harvard Business School, 2019.

Revisão e tradução do texto original

IISP – Instituto Internacional em Segurança Psicológica

Patrícia Ansarah
Fundadora do IISP – Instituto Internacional em Segurança Psicológica. Psicóloga organizacional, atua há mais de 25 anos no desenvolvimento de pessoas, times e organizações, com ampla experiência em grandes empresas de diferentes mercados e culturas.

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Diogo Almeida
Autor
Editor-chefe e idealizador do projeto MundoBola, criado em 2015. Jornalista digital com 10 anos de experiência, residente no Rio de Janeiro. Acredita que o esporte é o assunto mais importante dos menos importantes.