Como pode um título atestar ao mesmo tempo a imensa superioridade e o incrível amadorismo do Flamengo?

Atualizado: 09/03/2026, 10:17
Flamengo comemora defesa de Rossi na final

Banner João Luis Jr
Um pouco como se a Rayssa Leal tivesse ido de patins disputar um campeonato de skate ou a Confederação Brasileira de Vôlei mandasse uma dupla direto da praia pra enfrentar seis caras num jogo de quadra. Talvez um esquiador ir de sunga e chinelos pra uma prova das Olimpíadas de Inverno? Ou mesmo enviar seu sobrinho de 16 anos segurando uma faquinha plástica direto pro ringue do UFC.

Foi mais ou menos esse o nível de descaso, confusão e amadorismo apresentado pelo Flamengo na disputa do Campeonato Carioca 2026. Começamos o torneio com o time sub-20 que apanhou de maneira sistemática, aí colocamos o time principal absolutamente fora de forma para também se envolver em constrangimentos e por fim demitimos um treinador logo antes da final pra trazer um outro cidadão que teve quatro dias no clube e escalou o mesmo time base do treinador demitido.

E ainda assim, mesmo com todo esse caos, toda essa confusão, todo esse absoluto despreparo, o Flamengo conquistou seu 40º título estadual. Com um futebol abaixo da crítica, com atuações medonhas nos clássicos e jogando bem apenas contra times pequenos de baixíssimo investimento, o Flamengo ainda assim foi, mais uma vez, o melhor time do Rio de Janeiro.

O que diz muito sobre a gestão de padaria do nosso futebol, em que Bap manda e desmanda com decisões baseadas em ego, birra e convicções pessoais. No Flamengo as coisas que o presidente leu no Twitter importam mais que o planejamento de um departamento, na Gávea uma birra de dirigente pode levar um técnico campeão de tudo a ser demitido menos de três meses depois de quase ganhar um Mundial. A gente que se vire.

Mas isso também diz muito sobre o abismo que existe entre o Flamengo e os outros times do estado. Porque mesmo num nível de absoluta bagunça, mesmo se sabotando de todas as formas, mesmo entrando no ringue com uma mão amarrada nas costas, uma venda nos olhos e fones tocando Linkin Park em altíssimo volume, o Clube de Regatas do Flamengo ainda conseguiu derrubar todos os seus adversários e aumentar ainda mais a sua superioridade local.

Não que seja exatamente algo a ser comemorado. Já faz bastante tempo que um título estadual vale muito pouco para qualquer clube grande, e para um com as ambições do rubro-negro, aí que ele vale menos ainda. Alterar o planejamento da temporada pensando em uma competição tão pequena foi uma atitude não apenas temerária como claramente burra da parte do presidente e que não apenas já vem cobrando seu preço como pode custar ainda mais caro lá na frente.

Mas como tudo que envolve o Flamengo, a expectativa era ganhar e sim, nós ganhamos. Pela 40ª vez. Mas como falei antes, nossas ambições e desafios são maiores. E ainda que a maneira como ganhamos esse Carioca sirva pra lembrar o quão superiores somos em relação aos adversários locais, a maneira como ele foi conquistado nos lembra também o quanto precisamos evoluir pra enfrentar os times bem melhores que teremos pela frente. Os títulos finalmente estão em dia, mas o futebol segue em falta. 


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J. Luis Jr.
Autor
João Luis Jr. é jornalista, flamenguista desde criança e já viu desde Walter Minhoca e Anderson Pico até Adriano Imperador e Arrascaeta, com todas as alegrias e traumas correspondentes. Siga João Luis Jr no Su...